Por que o limite do cartão não deve ser considerado renda
Ter um cartão com limite de R$ 5 mil, R$ 10 mil ou mais pode criar uma sensação enganosa de dinheiro disponível. O aplicativo mostra aquele valor pronto para uso e, em poucos segundos, é possível fazer uma compra mesmo sem ter o equivalente na conta bancária.
O problema é que limite de cartão não é renda. É crédito concedido por uma instituição financeira. Cada valor utilizado precisa ser pago posteriormente, normalmente por meio da fatura.
Confundir esses dois conceitos pode levar a compras incompatíveis com o orçamento, acúmulo de parcelas e dificuldade para pagar a fatura integralmente.
O Banco Central trata limites de cartão como uma forma de crédito concedida ao cliente, e não como parte da renda. A concessão do limite deve considerar o perfil de risco do titular e pode ser reavaliada pela instituição.
Qual é a diferença entre renda e limite de crédito?
Renda é o dinheiro que efetivamente entra no orçamento.
Salário, aposentadoria, rendimentos de trabalho autônomo e outras receitas recorrentes são exemplos, desde que realmente estejam disponíveis para pagar despesas.
O limite do cartão funciona de maneira diferente.
Quando uma instituição disponibiliza R$ 8 mil de limite, ela não está depositando R$ 8 mil na conta do cliente. Está permitindo que ele assuma obrigações de pagamento até determinado valor, respeitadas as condições do cartão.
Por isso, utilizar R$ 1.000 do limite significa criar uma dívida de R$ 1.000 que deverá aparecer na fatura, considerando as características da operação.
A distinção pode ser resumida da seguinte forma:
- renda aumenta os recursos disponíveis para pagar despesas;
- limite permite antecipar uma compra com dinheiro que terá de ser pago posteriormente;
- limite utilizado cria uma obrigação futura;
- limite disponível não aumenta a capacidade real de pagamento da pessoa.
O Banco Central também inclui limites de crédito entre as informações relacionadas às operações de crédito registradas no Sistema de Informações de Créditos, o SCR.
Um limite alto não significa que a pessoa pode gastar tudo
Imagine uma pessoa com renda líquida mensal de R$ 4.500 e um cartão com limite de R$ 12 mil.
Ela poderia olhar o aplicativo e concluir que possui R$ 16.500 disponíveis:
R$ 4.500 de renda + R$ 12.000 de limite.
Essa conta está errada.
A capacidade financeira continua dependendo principalmente daqueles R$ 4.500 e de outras receitas efetivas que realmente entrarão no orçamento.
Se a pessoa utilizar os R$ 12 mil do cartão, não terá aumentado sua renda. Terá criado uma obrigação que poderá superar várias vezes o dinheiro recebido em um único mês.
É justamente por isso que o valor disponibilizado pela instituição não deve definir quanto uma pessoa pode gastar.
Por que os bancos oferecem limites maiores que a renda mensal?
O limite não precisa necessariamente corresponder ao salário de um único mês.
As instituições avaliam diferentes informações para tomar decisões de crédito e devem manter os limites compatíveis com o perfil de risco do cliente, conforme as regras aplicáveis.
Na prática, um cartão também pode ser utilizado para compras parceladas, despesas de diferentes períodos e outras operações permitidas pelo emissor. Isso ajuda a explicar por que o limite disponível pode ser significativamente superior à renda mensal.
Mas uma autorização concedida pelo banco não equivale a uma recomendação de gasto.
A instituição avalia se deseja conceder determinado volume de crédito. O consumidor precisa avaliar se consegue pagar as obrigações que pretende assumir.
São análises diferentes.
O principal risco é organizar o orçamento pelo limite
Uma forma problemática de usar o cartão é verificar primeiro quanto existe de limite e, somente depois, decidir o que comprar.
Imagine que o aplicativo mostre:
Limite disponível: R$ 6.000
A pessoa encontra um celular de R$ 3.600 parcelado em 12 vezes e pensa: “Tenho limite suficiente”.
Isso responde apenas a uma pergunta: o cartão provavelmente possui limite para autorizar aquela operação.
Não responde à pergunta mais importante:
as parcelas cabem no orçamento junto com todas as outras despesas?
Se a resposta for negativa, o limite disponível pouco importa.
O material de educação financeira do Banco Central alerta justamente para o risco de tomar decisões de crédito apenas porque existe limite disponível ou porque a prestação parece caber no orçamento, sem considerar adequadamente o conjunto das dívidas e despesas.
Parcelamentos podem dar uma falsa sensação de espaço
O cartão torna esse problema ainda mais fácil de ignorar porque permite distribuir determinadas compras por vários meses.
Considere quatro compromissos:
- R$ 250 por mês de um celular;
- R$ 180 de um eletrodoméstico;
- R$ 150 de uma compra de roupas;
- R$ 220 de uma viagem.
Só essas parcelas representam:
R$ 800 por mês.
Se a pessoa continuar olhando apenas para o limite liberado, poderá assumir novas parcelas enquanto as anteriores continuam ocupando parte de sua renda.
Com o passar dos meses, uma parcela aparentemente pequena após outra pode consumir uma fração importante do orçamento.
O problema não está necessariamente no parcelamento em si. Está em assumir compromissos futuros sem considerar quanto da renda já está comprometido.
Limite disponível e dinheiro disponível são coisas diferentes
Considere uma pessoa que possui:
R$ 1.500 na conta bancária
e
R$ 9.000 de limite disponível no cartão.
Ela não possui R$ 10.500.
Possui R$ 1.500 em recursos naquele momento e uma possibilidade de assumir até determinado volume de obrigações por meio do cartão, de acordo com as regras do emissor.
Essa diferença precisa ficar clara porque o cartão posterga o momento em que o dinheiro sai da conta.
Quando uma compra de R$ 500 é feita no crédito, o saldo bancário pode permanecer igual naquele instante. Isso cria a sensação de que nada foi gasto.
Financeiramente, porém, surgiu uma obrigação de R$ 500.
A fatura representa compromissos já assumidos
Uma maneira mais adequada de visualizar o cartão é tratar cada compra como uma despesa realizada, mesmo que o pagamento ocorra posteriormente.
Se uma pessoa recebe R$ 5.000 por mês e já acumulou uma fatura de R$ 2.000, parte da renda futura já possui destino.
Esses R$ 2.000 não devem ser ignorados apenas porque ainda estão na conta bancária.
Quanto maior o número de parcelas futuras, mais importante fica observar também as próximas faturas, e não apenas a atual.
Uma compra parcelada hoje pode comprometer orçamento de vários meses.
O aumento do limite pode incentivar gastos maiores
Receber uma notificação informando que o limite aumentou costuma parecer uma boa notícia.
Pode ser útil ter uma margem maior para determinadas despesas ou compras planejadas. Mas o aumento do limite não deve provocar automaticamente aumento do padrão de consumo.
Se uma pessoa ganha R$ 4 mil e seu limite passa de R$ 5 mil para R$ 10 mil, sua renda não dobrou.
As despesas fixas continuam existindo e sua capacidade de pagar a fatura continua dependendo do orçamento real.
O próprio Banco Central determina que aumentos de limite realizados por iniciativa da instituição dependem de consentimento prévio do titular.
O consumidor também pode optar por trabalhar com um limite menor caso isso facilite o controle financeiro.
Usar todo o limite pode afetar vários meses
Quando alguém utiliza grande parte do limite em uma única compra parcelada, o impacto não fica necessariamente restrito à próxima fatura.
Uma compra de R$ 6.000 dividida em 12 parcelas de R$ 500, por exemplo, cria um compromisso de R$ 500 durante um ano, desconsiderando outros gastos e condições específicas da operação.
Se surgirem despesas inesperadas nesse período, parte da renda já estará comprometida.
É por isso que avaliar apenas se a primeira prestação cabe no próximo salário não é suficiente.
Também é necessário pensar no que acontecerá nos meses seguintes.
O cartão pode ser útil sem virar extensão do salário
Evitar tratar limite como renda não significa que o cartão de crédito seja necessariamente prejudicial.
Ele pode facilitar pagamentos, centralizar despesas e permitir compras planejadas.
A diferença está na forma de utilização.
Uma regra prática é definir quanto pode ser gasto com base no orçamento, e não no limite concedido pelo banco.
Imagine uma pessoa que tenha R$ 10 mil de limite, mas conclua que consegue comprometer no máximo R$ 1.800 mensais com despesas feitas no cartão.
Para o planejamento dela, R$ 1.800 é uma referência muito mais relevante do que os R$ 10 mil disponíveis.
Como definir um limite pessoal de gastos
O limite técnico do cartão é estabelecido pela instituição. Já o limite pessoal de gastos pode ser determinado pelo próprio consumidor.
Primeiro, identifique a renda líquida realmente disponível no mês.
Depois, desconte despesas essenciais e compromissos já existentes, como moradia, alimentação, transporte, financiamentos e outras contas.
Também considere objetivos como formação de reserva financeira e despesas que não aparecem todos os meses.
O valor restante ajuda a indicar quanto existe de espaço real para consumo adicional.
Esse planejamento é mais seguro do que pensar:
“Se o cartão aprovar, eu posso comprar.”
A aprovação significa que existe crédito disponível. Não significa necessariamente que aquela compra combina com o orçamento.
O que acontece quando a fatura supera a renda disponível?
Quando os gastos no cartão ficam muito acima da capacidade de pagamento, o consumidor pode chegar ao vencimento sem conseguir quitar integralmente a fatura.
A partir daí, pode precisar utilizar alguma forma de financiamento da dívida, como crédito rotativo ou parcelamento da fatura, dependendo das opções disponíveis.
Isso acrescenta juros e outros custos previstos na operação.
A dificuldade pode se repetir caso novas compras continuem sendo realizadas enquanto a dívida anterior ainda está sendo paga.
O Banco Central destaca em seus materiais de educação financeira que facilidade de acesso ao crédito, quando não acompanhada de planejamento, pode contribuir para o endividamento excessivo.
Crédito não substitui uma reserva de emergência
Outro erro comum é considerar o cartão como reserva para imprevistos.
Ele pode ser utilizado em determinadas emergências, mas existe uma diferença fundamental: uma reserva financeira utiliza recursos próprios, enquanto o cartão utiliza crédito.
Se surgir uma despesa inesperada de R$ 3.000 e houver R$ 3.000 guardados para emergências, o pagamento pode consumir a reserva, mas não necessariamente cria uma dívida.
Se a mesma despesa for colocada no cartão sem existir dinheiro para pagar a futura fatura, nasce uma obrigação financeira.
Ter limite disponível pode ajudar em situações específicas, mas não substitui a construção de recursos próprios para lidar com imprevistos.
Quanto de limite é adequado?
Não existe um valor único que seja ideal para todas as pessoas.
Uma pessoa com despesas altas concentradas no cartão pode precisar de um limite maior sem necessariamente gastar além da renda. Outra pode preferir um limite reduzido para dificultar compras impulsivas.
A questão principal é evitar que o limite determine o padrão de vida.
Se um cartão oferece R$ 15 mil, mas o orçamento só permite gastar R$ 2 mil naquele mês, os R$ 2 mil devem orientar a decisão.
O restante é apenas capacidade de crédito ainda não utilizada.
Também é possível consultar compromissos de crédito registrados no sistema financeiro por meio do Relatório de Empréstimos e Financiamentos do Banco Central, disponível no Meu BC. O relatório reúne dívidas e compromissos informados pelas instituições participantes.
O limite do cartão é, portanto, uma ferramenta de crédito e não uma parcela adicional do salário. Quanto mais clara estiver essa diferença, mais fácil fica usar o cartão sem permitir que compras atuais consumam uma parcela excessiva da renda futura.
O melhor parâmetro para decidir quanto gastar não é quanto o banco está disposto a emprestar, mas quanto o orçamento permite pagar sem comprometer despesas essenciais, objetivos financeiros e a capacidade de quitar a fatura.
Fontes consultadas
- Banco Central do Brasil, Limite de cartão de crédito.
- Banco Central do Brasil, Caderno de Educação Financeira.
- Banco Central do Brasil, Uso do Crédito e Administração das Dívidas.
- Banco Central do Brasil, Sistema de Informações de Créditos (SCR).
- Banco Central do Brasil, Relatório de Empréstimos e Financiamentos
