Como funciona o crédito rotativo do cartão

O crédito rotativo do cartão entra em cena quando o consumidor não paga integralmente a fatura no vencimento e faz um pagamento parcial sem parcelar o restante. Nesse caso, a parte que ficou pendente é financiada pela instituição e passa a ter incidência dos juros e encargos previstos no contrato.

Na prática, é como contratar automaticamente um crédito sobre a parcela da fatura que não foi quitada. O recurso pode resolver uma dificuldade momentânea de caixa, mas tem custo e possui regras específicas.

Desde janeiro de 2024, também existe um limite para a cobrança acumulada de juros e encargos financeiros em determinadas dívidas do cartão. Isso reduziu o potencial de crescimento dessas dívidas, mas não significa que o crédito rotativo tenha se tornado barato.

O que é o crédito rotativo?

O crédito rotativo é uma modalidade de financiamento relacionada ao saldo da fatura do cartão.

Imagine uma fatura de R$ 2.500. No vencimento, o consumidor consegue pagar apenas R$ 1.500 e não contrata o parcelamento do restante.

Nesse exemplo, existem R$ 1.000 que não foram pagos.

Esse saldo pode entrar no crédito rotativo e será acrescido dos juros e encargos aplicáveis. O Banco Central descreve o rotativo justamente como o financiamento da diferença entre o total da fatura e o valor efetivamente pago pelo cliente.

Portanto, pagar parte da fatura não significa que o restante será simplesmente transferido para o mês seguinte sem custo.

Quando o consumidor entra no rotativo?

O Banco Central apresenta três situações principais quando não ocorre o pagamento integral da fatura no vencimento.

O consumidor pode contratar o parcelamento da fatura, realizar um pagamento parcial sem parcelar o restante ou ficar inadimplente.

Na segunda situação ocorre a utilização do crédito rotativo.

Isso é importante porque rotativo e atraso não são exatamente a mesma coisa.

No pagamento parcial, existe um valor pago e outro financiado. Já quando não é cumprido o pagamento obrigatório, podem ser aplicados os procedimentos previstos contratualmente para inadimplência.

Como os juros do rotativo funcionam?

Os juros são cobrados sobre o saldo financiado conforme as condições da instituição.

Não existe uma única taxa válida para todos os cartões. As condições dependem do emissor e da operação.

Por isso, um exemplo com uma taxa inventada poderia produzir uma impressão incorreta sobre o custo real. Para descobrir quanto seu cartão efetivamente cobra, é necessário consultar a própria fatura, o aplicativo ou as condições contratuais.

As regras do Banco Central determinam que a fatura apresente informações que permitam ao titular comparar as alternativas disponíveis para pagamento da dívida, incluindo informações relacionadas aos encargos das opções oferecidas.

Exemplo simplificado

Considere novamente uma fatura de:

R$ 2.500

O consumidor paga:

R$ 1.500

Restam:

R$ 1.000

Esse R$ 1.000 representa o saldo que poderá ser financiado no rotativo, conforme as condições aplicáveis.

Se houver juros e demais encargos financeiros, o consumidor terá que pagar mais do que os R$ 1.000 originais para liquidar a operação.

A taxa exata deve ser consultada nas informações fornecidas pelo emissor.

É possível ficar vários meses no crédito rotativo?

Existe uma limitação importante.

O uso do crédito rotativo sobre o saldo da fatura pode ocorrer somente até o vencimento da fatura seguinte. O Banco Central descreve esse período como, em geral, cerca de 30 dias.

Isso significa que não é possível simplesmente manter o mesmo saldo indefinidamente no rotativo mês após mês.

Caso a dívida não seja quitada, outras condições de financiamento podem entrar em cena.

Quando a instituição oferece parcelamento do saldo remanescente do crédito rotativo, as regras aplicáveis precisam ser observadas.

Rotativo e parcelamento da fatura são diferentes

Embora os dois envolvam financiamento de uma dívida do cartão, não são a mesma modalidade.

No rotativo, o consumidor financia temporariamente o saldo que não conseguiu pagar.

No parcelamento da fatura, existe uma operação estruturada em prestações, com prazo e condições determinadas.

Por exemplo, se uma pessoa não consegue pagar R$ 3.000 integralmente, poderá encontrar na fatura uma alternativa para parcelar parte do saldo em determinado número de prestações.

A escolha não deve ser feita olhando somente para o tamanho da parcela.

É importante verificar taxa de juros, número de pagamentos, encargos, valor total a pagar e demais informações disponibilizadas pela instituição.

Existe limite para os juros do rotativo?

Sim.

Para dívidas de cartão de crédito originadas a partir de 3 de janeiro de 2024, o total cobrado a título de juros e encargos financeiros no crédito rotativo e no parcelamento do saldo devedor não pode ser superior ao valor original da dívida abrangida pela regra.

Um exemplo ajuda a entender.

Imagine que R$ 1.000 de uma fatura entrem no financiamento abrangido por essa limitação.

Os juros e encargos financeiros sujeitos ao teto não poderão ultrapassar R$ 1.000.

Assim, considerando o principal mais esses juros e encargos, o valor chegaria no máximo a R$ 2.000.

O limite continua sendo considerado mesmo se a dívida originada no rotativo posteriormente migrar para o parcelamento abrangido pela regra.

O limite não significa juros de 100%

Essa distinção é importante.

A regra não determina que a instituição deve cobrar juros de 100%. Ela estabelece um teto para o total acumulado dos juros e encargos financeiros abrangidos.

A taxa efetivamente cobrada continua dependendo das condições da operação.

Também não significa que o consumidor necessariamente terá de pagar o dobro da dívida. O dobro representa o limite do exemplo, não o custo obrigatório.

A nova regra tornou o rotativo vantajoso?

Não necessariamente.

Limitar o crescimento acumulado da dívida é diferente de tornar o financiamento barato.

Mesmo que uma dívida não possa crescer indefinidamente pelos juros e encargos abrangidos pela regra, pagar um valor significativamente superior ao saldo originalmente financiado pode representar um impacto considerável no orçamento.

Por isso, o rotativo continua sendo uma modalidade que merece atenção.

Quando houver dinheiro disponível, quitar integralmente a fatura evita a contratação desse financiamento.

O que aparece na próxima fatura?

Se o consumidor utilizou o crédito rotativo, a fatura seguinte pode apresentar o saldo correspondente com os encargos do período, além das demais obrigações existentes.

Também podem aparecer compras realizadas depois do fechamento anterior, parcelas de compras antigas e outros lançamentos.

É justamente essa combinação que pode dificultar o controle.

Imagine que uma pessoa tenha deixado R$ 1.500 no rotativo e, durante o novo ciclo, realize mais R$ 1.200 em compras.

A próxima fatura não refletirá apenas o problema anterior. Ela também precisará acomodar as novas despesas, além dos encargos correspondentes ao financiamento.

Por isso, continuar utilizando intensamente o cartão enquanto existe uma dívida anterior pode pressionar ainda mais o orçamento.

A fatura deve mostrar as alternativas disponíveis

As regras atuais também procuram facilitar a comparação das opções.

Segundo o Banco Central, a fatura deve possuir uma área destinada às alternativas de pagamento. Nela devem constar informações que permitam comparar as opções oferecidas para liquidação da dívida e os encargos correspondentes.

O valor total da fatura deve aparecer inicialmente como opção padrão para pagamento.

Além disso, a instituição deve fornecer informações sobre as formas disponíveis para liquidação e financiamento do saldo devedor.

Essas informações são importantes porque a menor prestação nem sempre representa a alternativa de menor custo total.

É possível antecipar o pagamento?

Sim.

A liquidação antecipada da fatura, total ou parcialmente, é um direito do consumidor, e as instituições devem disponibilizar informações e meios para sua realização.

Se houver uma dívida financiada, vale consultar o emissor para verificar o saldo atualizado e as condições para liquidação.

Não é recomendável simplesmente fazer cálculos próprios e transferir um valor estimado, porque a instituição é quem poderá informar corretamente o saldo da operação naquele momento.

É possível levar a dívida para outro banco?

Outra possibilidade prevista atualmente é a portabilidade do saldo devedor da fatura.

O Banco Central informa que o saldo envolvendo operações de crédito em aberto, incluindo crédito rotativo ou parcelamento de fatura em atraso, pode ser transferido para outra instituição quando o devedor encontrar melhores condições.

Isso não significa que qualquer transferência será automaticamente vantajosa.

Antes de trocar uma dívida por outra, é necessário comparar o custo total das propostas e verificar se a nova prestação realmente cabe no orçamento.

Trocar uma dívida cara por outra mais barata pode fazer sentido. Trocar apenas para diminuir a prestação, aumentando excessivamente o prazo e sem analisar o custo total, exige mais cuidado.

Como evitar depender do crédito rotativo

A principal medida é acompanhar a fatura antes do vencimento, e não somente quando chega o momento de pagá-la.

Se o valor acumulado estiver ficando maior do que o orçamento permite, reduzir novas compras antecipadamente oferece mais alternativas do que descobrir o problema no último dia.

Também é útil acompanhar as parcelas que já estão comprometidas para os próximos meses.

Quando não for possível pagar integralmente, vale comparar as opções apresentadas pela instituição antes de escolher automaticamente o pagamento parcial.

Observe quanto ficará financiado, os juros cobrados, os encargos, o prazo e o total previsto para quitação.

O crédito rotativo pode funcionar como uma solução temporária para uma fatura que não pôde ser paga integralmente, mas não elimina a dívida. Ele apenas financia o saldo pendente.

Quanto mais cedo o consumidor entende o valor que ficou financiado e compara as alternativas disponíveis para quitá-lo, menor é o risco de misturar a dívida anterior com novas compras e transformar um desequilíbrio pontual em um problema que comprometa vários meses do orçamento.

Fontes consultadas

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