Por que alguns títulos de renda fixa oscilam antes do vencimento?

A expressão “renda fixa” pode transmitir a impressão de que o valor do investimento só aumenta com o passar do tempo. Na prática, alguns títulos podem aparecer com rentabilidade negativa em determinados períodos ou apresentar variações consideráveis de preço antes do vencimento.

Isso acontece porque renda fixa não significa necessariamente preço fixo. Em muitos investimentos, o que está definido é a forma de remuneração caso determinadas condições sejam cumpridas, especialmente a manutenção do título até o vencimento.

Quando o investidor consulta quanto aquele papel vale hoje, entra em cena outro conceito importante: a marcação a mercado. É ela que ajuda a explicar por que um título comprado por determinado valor pode valer mais ou menos algum tempo depois.

O que é a marcação a mercado?

Marcação a mercado é a atualização do preço de um ativo considerando as condições atuais do mercado.

A ANBIMA explica que essa atualização leva em conta fatores como mudanças nas taxas de juros e condições de oferta e demanda. Dessa forma, o preço de referência de um título pode subir ou cair ao longo do tempo.

Imagine um título prefixado adquirido quando os investimentos semelhantes disponíveis no mercado ofereciam determinada taxa. Algum tempo depois, as taxas oferecidas por novos títulos aumentam.

O título antigo continua com as condições originalmente contratadas, mas agora precisa competir com investimentos novos que oferecem taxas maiores. Para que seja interessante comprá-lo no mercado secundário, seu preço tende a cair.

O movimento contrário também pode acontecer.

A relação entre juros e preço dos títulos

Um dos conceitos mais importantes para entender as oscilações da renda fixa é a relação inversa entre preço e taxa de juros.

De maneira simplificada:

  • quando as taxas de mercado sobem, o preço de títulos existentes tende a cair;
  • quando as taxas de mercado caem, o preço de títulos existentes tende a subir.

O próprio Tesouro Direto explica que um aumento da taxa de juros de mercado em relação à taxa do investimento provoca queda no preço do título. Uma redução dos juros produz o efeito contrário.

Um exemplo simplificado

Suponha que um investidor compre um título prefixado com determinada remuneração anual.

Depois da compra, títulos semelhantes passam a oferecer taxas maiores. Para um novo investidor, comprar o papel antigo pelo mesmo preço deixa de ser tão interessante, pois existem alternativas pagando mais.

O preço do título antigo precisa se ajustar.

Se, posteriormente, as taxas disponíveis no mercado diminuírem, o título adquirido anteriormente pode se tornar relativamente mais atraente. Nesse cenário, seu preço de mercado pode aumentar.

É por isso que acompanhar apenas a taxa contratada não é suficiente para saber quanto um título vale caso seja vendido hoje.

A oscilação significa que o investidor perdeu dinheiro?

Não necessariamente.

Existe uma diferença importante entre observar uma queda no preço de mercado e efetivamente vender o investimento por aquele preço.

Um título pode estar temporariamente valendo menos do que em determinado momento anterior. Se o investidor não realizar a venda, aquela oscilação não representa automaticamente uma perda definitiva.

No Tesouro Direto, por exemplo, os títulos são recomprados antecipadamente a preços de mercado. Já para quem permanece com o título até o vencimento, vale a rentabilidade definida na aquisição, conforme as regras e características daquele investimento.

Portanto, o prazo planejado para utilização do dinheiro é fundamental.

Por que títulos de longo prazo costumam oscilar mais?

O prazo até o vencimento influencia a sensibilidade de determinados títulos às mudanças nas taxas de juros.

Em geral, títulos prefixados ou indexados à inflação com vencimentos mais distantes podem apresentar oscilações maiores de preço do que títulos semelhantes próximos do vencimento.

A ANBIMA destaca que títulos de longo prazo tendem a apresentar variações relativamente maiores porque são mais sensíveis ao desempenho e às perspectivas da economia.

Isso acontece porque uma alteração nas taxas esperadas afeta fluxos financeiros que ainda estão distantes no tempo.

Na prática, duas aplicações de renda fixa podem ter comportamentos bastante diferentes, mesmo pertencendo à mesma categoria geral de investimentos.

Prefixados e títulos indexados à inflação merecem atenção

A marcação a mercado costuma ficar particularmente perceptível em títulos prefixados e híbridos.

No título prefixado, a taxa de remuneração é determinada na contratação. Se as taxas exigidas pelo mercado mudarem posteriormente, o preço daquele papel precisa se ajustar.

Em títulos indexados à inflação, como determinados títulos públicos ligados ao IPCA, existe uma parcela de remuneração associada ao índice e outra relacionada a uma taxa definida no momento da compra. Alterações nas taxas reais negociadas pelo mercado também podem provocar oscilações no preço antes do vencimento.

Por isso, é possível abrir a carteira e encontrar um título de renda fixa temporariamente no negativo.

Isso não transforma o investimento em renda variável. É consequência da precificação daquele fluxo financeiro nas condições atuais do mercado.

E os títulos pós-fixados?

Nem todos os títulos apresentam a mesma intensidade de oscilação.

Investimentos pós-fixados acompanham um indicador definido em suas regras, como a Selic ou o CDI, dependendo do produto. Como a remuneração acompanha uma referência que varia ao longo do tempo, seu comportamento é diferente do observado em um título totalmente prefixado.

Isso não significa que todo investimento pós-fixado tenha preço invariável.

Além da estrutura de remuneração, fatores como liquidez, prazo, condições de negociação e risco do emissor podem ser relevantes.

Em títulos privados, inclusive, alterações na percepção sobre o risco de crédito do emissor também podem influenciar seu preço. Material educacional da ANBIMA destaca que títulos de renda fixa emitidos por empresas podem ter preços alterados tanto pela variação das taxas de juros quanto por mudanças no risco de crédito.

Marcação a mercado e marcação na curva são diferentes

Esses dois conceitos ajudam a interpretar corretamente o saldo mostrado pela instituição financeira.

Marcação na curva acompanha a evolução do investimento conforme as condições contratadas, considerando sua manutenção até o vencimento.

Marcação a mercado procura mostrar quanto aquele ativo vale nas condições atuais de negociação.

A diferença é especialmente importante para quem pode precisar vender o investimento antecipadamente.

Desde janeiro de 2023, distribuidores que seguem as regras aplicáveis da ANBIMA passaram a disponibilizar valores de referência de mercado para determinados títulos, incluindo debêntures, CRIs, CRAs e títulos públicos federais fora do Tesouro Direto.

A visualização dessas oscilações aumenta a transparência, mas também exige que o investidor saiba interpretar o número apresentado.

Vender antes do vencimento muda a situação

A marcação a mercado ganha importância principalmente quando existe possibilidade de saída antecipada.

No Tesouro Direto, o Tesouro Nacional recompra antecipadamente os títulos considerando preços de mercado. Isso significa que a rentabilidade efetivamente obtida em uma venda antecipada pode ser diferente daquela esperada quando o investimento foi realizado.

Em títulos privados, a possibilidade e as condições de saída dependem das características do produto e da existência de mercado para negociação.

Por esse motivo, não é recomendável escolher um título de prazo longo considerando apenas a taxa oferecida. Também é necessário avaliar quando o dinheiro poderá ser necessário e quais são as condições de liquidez.

Oscilação também pode criar valorização antes do vencimento

A marcação a mercado não funciona somente para baixo.

Quando as taxas de mercado caem, um título adquirido anteriormente com condições mais atraentes pode se valorizar. Nesse caso, sua venda antecipada pode apresentar uma rentabilidade diferente da originalmente projetada para aquele momento.

Isso não significa que seja possível prever facilmente quando haverá oportunidade de ganho.

As taxas são influenciadas por expectativas de inflação, política monetária, cenário fiscal, atividade econômica, percepção de risco e outros fatores. Tentar antecipar continuamente esses movimentos envolve incerteza.

Para quem pretende manter o investimento até o vencimento, acompanhar cada pequena oscilação diária pode ser menos relevante do que verificar se o título continua adequado ao objetivo para o qual foi comprado.

O que observar antes de investir em renda fixa

Antes de escolher um título, vale analisar conjuntamente rentabilidade, vencimento, liquidez, tributação quando aplicável, risco de crédito e possibilidade de precisar do dinheiro antecipadamente.

Também é importante entender como funciona a remuneração. Um prefixado, um pós-fixado e um título indexado à inflação podem reagir de maneiras diferentes às mudanças econômicas.

Quanto maior a possibilidade de precisar resgatar antes do prazo, maior deve ser a atenção às condições de saída e às possíveis oscilações de preço.

Assim, ver um título de renda fixa cair na carteira não significa necessariamente que algo esteja errado. Muitas vezes, o que aparece na tela é simplesmente o preço pelo qual aquele investimento seria negociado nas condições atuais.

Entender essa diferença ajuda a evitar decisões baseadas apenas na variação de curto prazo. Na renda fixa, tão importante quanto observar a taxa oferecida é saber qual é o prazo do investimento, como seu preço é formado e o que acontece caso seja necessário sair antes do vencimento.

Fontes consultadas

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